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Archive for Maio, 2010

Ciclos da Vida

Imagem retirada do google.com.br

Sentado à beira de um abismo ele chorou, viu sua lágrima cair a esmo em meio ao nada. Tentou conter-se, mas já não lhe havia o poder do auto-controle. Simplesmente chorou.
Ao seu lado uma árvore desfolhada, à sua frente um escuro interminável e dentro de si uma alma despedaçada. Ele lembrava dos conselhos que ouvira até aquele ponto de sua vida, conselhos aos quais sempre disse que se fossem bons não se davam, se vendiam. Recordou do desejo ardente por um beijo, e da traição que o mesmo trazia num ato de desespero. Trouxe à tona seus pecados, clamou por piedade. Olhou para o céu e pediu para saber somente a verdade de uma versão só e não as verdades distorcidas pelas bocas que queriam produzir suas próprias histórias, estas que em sua mente formavam um nó.
Retirou do bolso de sua jaqueta um bilhete amassado, mas não teve a coragem de reler aquelas palavras que o direcionava para um outro lugar de si. Agachado, com os braços envolvendo as pernas, enxergou entre seu par de all star surrado uma rosa estremecida na terra. Delicadamente a tomou em suas mãos e percebeu como a vida é frágil. Nesse momento ele se sentia como uma pétala que havia se desprendido do caule, uma pétala que seguia ao sabor do vento. Planou e não pensava em aterrissar. Devolveu a rosa despedaçada à terra e tornou a recolher a cabeça entre os braços.
Pensamentos o atordoavam e ele já não mais sabia o que fazia ali. Sentiu-se, por um momento, confuso e perdido sem ter a certeza do que o levava a tal ato, a tal desespero. Ergueu novamente a cabeça e avistou as nuvens a deslizar pelo céu. Ao seu lado folhas secas voavam e a rosa, que devolvera a terra, havia por ela sido encoberta. Foi nesse pequeno, sutil e breve espetaculo da natureza que então percebeu que na vida tudo tem sua etapa, e que uma não pode invadir o espaço da outra. Notou que a vida possui vários ciclos, e que todos lhe fornece uma lição e um aprendizado. Assim, ali, ainda na beira do abismo, colocou as mãos sobre os joelhos e lentamente se levantou. Olhou para o horizonte, enxugou a lágrima que estava prestes a mergulhar no abismo de encontro com a que caíra minutos antes e teve a paz e a coragem necessária para desamassar e reler o bilhete que até então o assustava: “a vida é de perdas e ganhas, de mágoas e glórias. Não chores por ter acabado, pois o levo comigo nas lembranças e no coração. Sim, te amo.”
Algumas coisas nunca serão entendidas até o momento exato, e este pode demorar anos para chegar. O importante é saber a hora de encerrar cada capitulo da vida e iniciar um novo.
Ele se levantou e deu meia volta, agora anda em frente, enterrando as pétalas destacadas e dando lugar para que outras surjam intactas e belas.
Estar de frente para o abismo não significa que seja a hora de pular dentro dele.
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Michel Carvalho

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Imagem retirada do google.com.br

A vida é preenchida por detalhes, por pequenos e constantes momentos que se aglomeram no decorrer do tempo e formam nossa particular história.
Somos um todo que adveio dos fragmentos que vivemos e presenciamos dia após dia. Uma soma de sentimentos abstratos que nos leva a uma certeza absoluta, esta pela qual lutamos e vivemos na esperança de sentirmo-nos completos. Almas que vivem em uma eterna busca, esta que jamais nos parecerá acabar, pois o seu fim encontra-se no alcançar de um objetivo supremo que desconheceremos até o minuto final. Um ideal certo, mas de percurso indefinido. Somos nossas escolhas e vivemos suas consequências. Percorremos um ciclo no qual a vida não pára, os momentos não cessam e os erros não somem. Esperamos compreensão, suplicamos por perdão, mas  nos vemos incapazes de expressar nossas necessidades. Respiramos, mas nem sempre temos a certeza de que vivemos…
Somos um livro de vários contos, poemas de estrofes ilógicas, narrações aleatórias… Um inicio tentando realizar um bom meio e com medo de obter um solitário fim.
Nas noites incertas depositamos nossas cabeças sobre o travesseiro tentando imaginar o que será do nosso amanhã, dos nossos sonhos. Aprendemos a temer a possibilidade de estarmos errado sobre nossas mais intrínsecas certezas, mas agarramo-nos a elas, pois são nossas maiores certezas, ainda que estejam erradas ou de tudo nem tão certas. Vivemos o que acreditamos, lutamos pelo o que queremos e andamos ao lado de quem confiamos. As Leis e as Religiões pregam que somos todos iguais, mas possuímos gostos e sonhos diferentes, falamos diferentes, ouvimos diferente, andamos por caminhos diferentes… Assusta-me isso, pois tudo indica que com tanta divergência, ainda assim, caminhamos para um mesmo final.
Qualquer um sabe pelo menos 5 dos 10 mandamentos, mas poucos se atentam a eles por 10 segundos. Todos dizem saber de seus direito, mas são raros os que entendem suas “obrigações”. Muitos são os que batem no peito para dizerem que não abrem mão de suas liberdades, mas são os mesmos que ceifam a liberdade alheia. Somos a semelhança de um Deus, mas possuímos um pouco, ou um muito, de Judas em nós, traímos a nós mesmos com um beijo, com uma escolha, com uma palavra, com uma atitude. Nessa tão longa breve vida morremos e ressuscitamos diversas vezes, mas ainda não foi o suficiente para que aprendessemos a lição, para que entendessemos o verdadeiro significado da vida.
Eu só espero que em meios a tantos detalhes e momentos, o tempo me traga a lembrança de uma história que, mesmo que não seja a sonhada, seja uma da qual me orgulharei e terei a certeza de que valeu a pena.
Não sei da minha missão, tampouco do meu ideal nessa terra de mistérios e surpresas, mas espero ser páginas de um livro digno de uma leitura minuciosa e prazerosa. Uma leitura que não traga um roteiro a ser seguido, mas que leve uma mensagem a ser respeitada, ao menos respeitada.
Aprendemos algo novo ao nascer de cada dia e notamos que nada sabemos ao findar o mesmo.
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Michel Carvalho

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